BALADA DO AMOR Q Ñ VEIO...j g de araújo jorge

Se acaso penso em ti, me inquieta o pensamento...


Por que havias de vir assim tarde demais?

Bem que eu tinha de há muito um cruel pressentimento,

-- e há sempre um desespero em nós, se num momento

desejamos voltar a vida para trás...


Neste instante imagino o que teria sido

o meu vago destino desorientado,

se antes, eu já te houvesse um dia conhecido,

a esse tempo, meu Deus!... -- e esse tempo perdido

pudesse ao teu convívio ter aproveitado!

Não há nada entre nós, nada... e em verdade há a vida

que nos chama e nos prende!... E já agora imagino

que aqui estas ao meu lado a ouvir-me comovida

e me entregas a mão, -- e entrego-te vencida

a minha alma, -- e com ela todo o meu destino!

Não há nada entre nós, -- mas se nos encontramos

ouvirás de hoje em diante um poema onde tu fores,

-- trouxemos o destino estranho de dois ramos,

separados, -- que importa? ainda assim nos juntamos

confundindo as ramagens, misturando as flores...

E eu nem te vi direito! Um olhar sob um véu,

(há qualquer coisa estranha num olhar velado...)

-- um olhar, -- não direi que em teu olhar há um céu,

quando sei que afinal há tanta angustia e fel

em tudo o que me tens da vida revelado!

Acompanhei-te o vulto um segundo, alguns passos,

nada mais, e no entanto, se quiser pensar

sou capaz de te ver, ( há gestos nos espaços,

e guardei a visão dos teus braços, -- teus braços

guardei-os, como dois clarões dentro do olhar!)

E devem ser macias as tuas mãos, -- não ouso

pensar no que elas guardem nos seus finos dedos,

-- pensando em tuas mãos, penso em sombra, em

repouso,

num lugar quieto e bom, e num vento amoroso

a soprar entre as folhas múrmuros segredos...

Mas... que saibas perdoar estas coisas que escrevo,

pensei-as a escutar distante a tua voz,

e há algumas coisas mais, que a dizer não me atrevo,

é que escrevo demais, e não posso, e não devo,

e não tenho o direito de falar de nós...